O que ganhamos com a arte não é o que aprendemos com ela,
e sim o que nos tornamos através dela.
Oscar Wilde
São inúmeras as vezes que, para avançarmos numa plataforma digital, temos de provar a nossa condição humana. Fazemo-lo, paradoxalmente, exercitando uma digitalização programada para confirmar a humanidade do nosso gesto, prometendo-se uma consequência na correspondência da decisão. Essa é uma tarefa simples do ponto vista funcional, mas com implicações maiores ao nível da reflexão sobre a natureza humana na sua relação com as máquinas, em particular com as imagens programadas para interagirmos de modo digital. Ao mesmo tempo, repetimos tantas vezes esse gesto de confirmação, que já o fazemos de modo automático, aproximando-nos, aos poucos, da mecanização gestual, a lembrar a automatização associada aos robôs…
Esta e outras tarefas promovidas por uma realidade cada vez mais virtual, contribuem para alterações psicológicas e comportamentais que ainda estão por identificar. À parte o conjunto cada vez maior de ações quotidianas realizadas no contexto da nossa vida digitalizada, há uma dissonância cognitiva maior que nos invade desde a descoberta do poder “investigativo” da IA, esse cruzamento exaustivo de milhões de dados, que gera respostas mais ou menos adequadas e profundas, mas sempre imediatas, como uma espécie de calculadora narrativa.
Se o diagnóstico aparece associado ao primeiro sintoma do seu potencial, as narrativas apresentadas pelos geradores de texto traduzem uma ambivalência que aponta à paradoxalidade da sua receção pelos seres humanos. Incapazes de fazer frente à rapidez estrutural da resposta computadorizada, buscamos, em alternativa, uma singularidade que garanta uma certa (e desejada) impossibilidade de apropriação por parte dos sistemas de dados que nos ameaçam nessa tarefa (escrever) antes apenas confinada à inteligência humana. Há quem adiante estarmos perante um desafio perdido, que a IA tomará em breve as rédeas de todas as funções intelectuais que nos definem enquanto seres humanos. Pior, que o farão com mais competência e criatividade. Mas há também quem veja nesse destino uma oportunidade, que os seres humanos encontrarão no caminho uma nova constelação a explorar, associada à criatividade que as máquinas, por muito sapientes que se apresentem, não conseguirão dominar, pelo menos nos aspetos que constituem alguns dos valores idiossincráticos associados ainda à natureza humana. Só o tempo nos dará uma resposta mais esclarecedora.
Inspirado pelo último trabalho artístico de Nuno Cera, proponho desde já um diálogo entre a capacidade reflexiva da IA e a análise que aqui procurarei desenvolver entre as imagens do artista português, a robotização da nossa contemporaneidade e a leitura que Albert Camus fez do mito de Sísifo.[1]
Num dos chats de IA introduzo a pergunta, “Qual a relação que podemos estabelecer entre a interpretação do mito de Sísifo por Albert Camus, a robotização da indústria e da ciência e o ato criativo humano?” Três segundos depois, surge a resposta: “A interpretação do mito de Sísifo por Albert Camus traz uma reflexão profunda sobre tarefas repetitivas, sentido existencial e a dignidade do esforço humano diante do absurdo. Ao conectá-la à robotização da indústria e da ciência, e ao ato criativo humano, podemos estabelecer relações significativas: 1. O mito de Sísifo segundo Camus: Albert Camus interpreta Sísifo como símbolo do trabalhador condenado à repetição sem perspetiva de sentido último. Para Camus, reconhecer o absurdo da existência — seja nas tarefas repetitivas do quotidiano ou na busca de sentido em meio ao vazio — não leva à resignação, mas à revolta: uma aceitação lúcida, digna e criativa da própria condição. 2. Robotização e tarefas mecânicas: Com o avanço da tecnologia e robotização, muitas funções repetitivas e mecânicas saem das mãos humanas e passam às máquinas. A inteligência artificial, por exemplo, permite que rotinas que antes eram ‘sisifais’ (sem realização pessoal ou criatividade) sejam automatizadas, potencialmente libertando o ser humano do ‘castigo’ do trabalho repetitivo. Nesse contexto, a robotização surge como antídoto para o ciclo incessante descrito por Camus. 3. Relação e reflexão: O mito de Sísifo traduz o risco de uma vida tomada por rotinas mecânicas, comuns antes da robotização das indústrias e da ciência. Nesse sentido, a robotização oferece a chance de transformar esse destino, ao liberar o humano para o ato criativo. O ato criativo humano, para Camus, é uma resposta à consciência do absurdo — uma construção de sentido onde não há garantias, mas apenas liberdade e dignidade. E a verdadeira superação do ‘mito de Sísifo’ ocorre quando a tecnologia remove a condenação ao trabalho mecânico e abre espaço para a criação, inovação e descoberta de sentido próprio — tarefa irredutivelmente humana.”[2] Se percebemos uma adequação formal (por vezes básica) da resposta – note-se que a plataforma de IA consultada estava no nível de acesso gratuito, não profissional –, não deixa de ser assinalável o âmbito das relações conceptuais consideradas, bem como o imediatismo verificado na sua estruturação. Qual calculadora de palavras e conceitos, a IA atua de um modo que promete uma espécie de nova “linha de montagem” no exercício reflexivo. Se estamos perante uma futura substituição da humanidade ou apenas diante outra etapa da fusão homem-máquina, é algo que nos mantém no plano da dúvida, apesar de todas as sombras. Para lá da versão apresentada pela narratividade da IA, ensaiemos nós (com base na nossa autonomia racional) uma aproximação à questão colocada, assumindo como ponto de partida o mais recente trabalho de artístico de Nuno Cera.
Resultado e interrogação dessa atmosfera, um dos filmes de Nuno Cera, agora apresentados no Museu do Neo-Realismo, sintomaticamente intitulado “cérebros, distantes”,[3] e realizado em 2025, a partir de um conceito de Nuno Cera e Julia Albani (numa colaboração ainda com Joana Rafael – texto – e Eduardo Vinhas – som), postula um significado extraído do agenciamento de elementos estéticos, históricos e arquivísticos descontínuos e móveis (entre imagens recortadas e sobrepostas de máquinas, robôs, plantas, mares, céus…), atuantes, contudo, na capacidade de nos fazer refletir sobre o tema das relações contemporâneas entre os seres humanos e as entidades mecano-sapientes. O artista não só tem disso a mais aguda consciência, como exercita a partir daí uma reflexão visual que se distancia de interpretações consensuais sobre a natureza da condição humana face à crescente robotização do quotidiano.
O que me assalta após o visionamento destas imagens é a ideia de que a relação entre o Homem e a Máquina é quase tão ancestral quanto a própria humanidade, desde que o engenho humano descobriu como a roda ou o vento nas velas podiam facultar uma maior facilidade no percurso de grandes distâncias. E, nesse sentido, um processo histórico pode ser evocado para sustentar a longa temporalidade dessa relação complexa, inquietante e questionadora. Em todo o caso, há uma dimensão simbólica que pode ser estabelecida nessa interligação crescente. Uma fusão foi já há muito anunciada pela medicina através das próteses aplicadas ao corpo humano, assim como pela mecanização da indústria, pelos sistemas de redes de transporte de pessoas e bens, pelo comércio global ou pela exponencial informatização da comunicação humana. Em todos esses momentos, observamos a inevitabilidade de uma comunhão, não só funcional como identitária, entre o ser humano, a racionalidade e as suas criações científicas. O criador e a criação em mútuo espelhamento, mesmo que nem sempre acompanhado do seu reconhecimento.
Por outro lado, como não ver neste filme, em particular na repetição das linhas de montagem robotizadas, o reflexo de Sísifo? Afinal, apenas a imagem do protagonista mudou, o homem condenado na ação eterna de carregar a mesma pedra ao cimo da montanha para vê-la deslizar até ao sopé e reiniciar o processo dá aqui lugar ao robô que repetirá, aparentemente sem esforço nem exaustão, o gesto maquínico para o qual está programado, enfatizando desse modo a alienação do trabalho humano e o poder da sua inevitabilidade. Entre a simbólica da metáfora mitológica, a sua leitura existencialista e o nosso presente cada vez mais robotizado, identificamos um significado comum: esse continuum de ação que nos traz a ilusão da eficácia, mas também o absurdo da obsessão pela rentabilização de todas as tarefas.
Podemos ainda perguntar: não estaremos também nós, humanos, programados desde a noite dos tempos? Programados geneticamente, ou em termos antropológicos, caminhamos sem parar, de geração em geração, inconscientes do nosso destino. E nesse trajeto que até há bem pouco tempo julgávamos quase infinito, não só não sabemos aonde nos levam os nossos genes, como continuamos sem saber o sentido da nossa ação, contida afinal nesse instinto de sobrevivência que trazemos há milhões de anos.
Recordemos que, na lente de Albert Camus, o mito de Sísifo revela-nos a inadequação do homem face à barbárie do mundo e ao absurdo da existência. E, tal como Sísifo, Nuno Cera reitera, obra a após obra, o sentido e a força interrogativa da criatividade artística, mesmo que inconsequente na transformação direta do real. Num mundo que se repete sem se transformar, a arte significa muitas vezes o valor da persistência, a luz de uma alternativa incómoda a essa eficácia funcional anunciada como absoluta num futuro não muito distante. Segundo a distinção de Hans Belting sobre Sísifo (arte) e Prometeu (tecnologia), a arte, ou o mito de Sísifo, significará uma resposta a um mundo onde reina o absurdo, onde a tecnologia (o mito de Prometeu) e o seu aparato de fascinação configuram uma hipotética ou prometida superação da humanidade.[4]
Recorro-me, de novo, da narrativa apresentada pela IA à questão por mim colocada no início deste texto, no intuito de abrir ao ato criativo uma outra hipótese nesse destino aparentemente proclamado pela ciência e o seu cortejo progressista: “4. O papel do ato criativo humano: Libertados das tarefas mecânicas, os humanos podem dedicar-se à criatividade, à reflexão e à busca por significado, onde o absurdo existe, mas pode ser transformado. Camus sugere que, mesmo diante do absurdo, a criação artística e intelectual é uma forma de revolta e de afirmação da liberdade humana. A busca por sentido, realização e inovação diferencia o humano do robot, pois é aí que reside a possibilidade de superar o destino repetitivo — o campo do possível a ser esgotado, em vez de buscar uma ‘vida imortal’.”[5] Se reconhecemos alguma ingenuidade nesta alternativa, sobretudo perante o esmagamento dos efeitos de manipulação ou domínio cognitivo e sensorial que a IA vai exercendo sobre os seres humanos, não deixa de constituir, mesmo assim, uma via ainda ao nosso alcance. A criatividade artística e intelectual, se não invadida por entidades de sapiência artificial, poderá de algum modo constituir o reduto de uma expressão de singularidade e autonomia humanas. O conflito hoje observado entre a arte e a tecnologia significa ao mesmo tempo um universo inteiro de correspondências, aproximações, batalhas e colaborações, sem sabermos aonde tudo isto nos conduz.
Segundo Hans Belting, “na produção de imagens, tal como nas nossas vidas, impera uma análoga compulsão à repetição. No ritual da iteração reside igualmente a esperança de nunca se chegar ao fim. Os seres humanos fabricam imagens sem cessar, embora sejam por elas, muitas vezes, decepcionados. A prossecução do ritual era também uma defesa contra a inutilidade de encontrar imagens definitivas ou verdades derradeiras nas imagens pessoalmente produzidas. A produção de imagens foi sempre a tentativa repetidamente suspensa e, no entanto, sempre de novo empreendida, de contrapor ao mundo um mundo imaginal próprio, para nele se pretender habitar. Existem as imagens com que se interpretaram as experiências inevitáveis da morte, do espaço e do tempo. O ritual de Sísifo consiste em projetar, sempre de novo, imagens no mundo existente, já que lhe está proibido inventar novos mundos.”[6]
Um dos vetores da proposta criativa de Nuno Cera que pode acentuar o sentido final desta última citação, ao “contrapor ao mundo um mundo imaginal próprio”, reside no poder dessa vírgula que se impõe no título do filme e que, na ausência consciente e deliberada da IA, separa o substantivo “cérebros”, da adjetivação “distantes”. Talvez possamos ter nessa opção sintática a chave para entender a força de uma criatividade que clama pelo valor da ambiguidade. Essa ideia remete-me a uma questão final: “I’m not a robot!” ou “Am I not a robot?” Somos apenas humanos ou também, em alguma medida, seres robotizados através dos sistemas digitais que dominam o nosso quotidiano? Os “cérebros” estão cada vez mais “distantes” dos humanos, ou, em sentido inverso, será que estamos, a cada dia, mais “distantes” dos nossos “cérebros”? No filme que dá nome à exposição, ouvimos a certa altura um robot dirigir-se ao artista: “Estás com medo, Nuno?” E nós, identificamo-nos com esse medo, ou enfrentaremos com coragem, autonomia e curiosidade o destino dos nossos “cérebros”, a sua partilha ou fusão com as máquinas digitais que nos ocupam o espaço da vida e da transcendência? Não esqueçamos, porém que, tal como refere Hans Belting, em arte nunca encontramos “imagens definitivas ou verdades derradeiras.”[7] Que assim permaneça, para reforço da nossa inquietação artística e existencial.
(versão original, AAVV, cérebros, distantes. distant brains, Museu do Neo-Realismo, 2025.)
(Imagem: still de cérebros, distantes, filme de Nuno Cera, 2025)
| 1 | ↑ | Cf. Albert Camus, O Mito de Sísifo. Ensaio sobre o Absurdo, (1942), (tradução para português de Urbano Tavares Rodrigues), Lisboa, Editora Livros do Brasil, s/d. |
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| 2 | ↑ | Chat IA Perplexity, in 1/10/2025. Esta resposta da IA apresenta ainda um ponto 4, referente ao “Papel do ato criativo” na relação com a tese central de Albert Camus sobre o “Absurdo” existencial. Esse ponto será citado mais à frente, neste texto. |
| 3 | ↑ | O outro filme em exposição tem por título “cérebros, distantes – plantas” (2025), onde prevalecem imagens de plantas, jardins e referências várias da natureza vegetal. |
| 4 | ↑ | Cf. Hans Belting, Sísifo ou Prometeu? Da arte e da tecnologia, hoje, (2003), (tradução para português de Artur Morão), Lisboa, KKYM + IHA, 2014. |
| 5 | ↑ | Chat IA Perplexity, in 1/10/2025. |
| 6 | ↑ | Cf. Hans Belting, op. cit. pág. 24. |
| 7 | ↑ | Idem. |