2024 A pintura como objeto e ‘mimesis’ do espaço de exposição (Museu do Neo-Realismo) Rui Macedo

A pintura como objeto e ‘mimesis’ do espaço de exposição (Museu do Neo-Realismo)

Em duas décadas de apresentação, o trabalho artístico de Rui Macedo parece sublinhar um desafio comum: a objetualização da pintura mimética na aliança concreta com o espaço da arte e os procedimentos da sua legitimação. Na verdade, há uma aptidão para o real inscrita nos seus trabalhos de pintura, que os inscreve, por sua vez, na necessária dependência de um outro real: o da arquitetura. A via dessa inquirição, apesar da densidade assumida com a história da pintura, realiza-se antes de mais através de uma profunda conceptualização sobre as possibilidades contemporâneas do ato pictórico. Este terá assim de considerar o “aqui e agora” da experiência pós-minimalista, isto é, do objeto de arte (neste caso, a pintura) percecionado no espaço, transformando-o necessariamente numa proposta efémera, porque emerge não apenas do gesto da pintura, como da sua condição de lugar. Em Rui Macedo não há pintura sem espaço, nem espaço sem pintura. Este não é mais o espaço projetivo, isto é, uma projeção do espaço no campo da imagem pictórica, mas o espaço compreendido enquanto obra “in situ”, ainda que de aparato pictórico. Tal como podemos reclamar a especificidade das “instalações metapictóricas”,[1] pois nessas propostas não podemos continuar a falar apenas de pintura, mas de pintura no espaço, remetendo desse modo para um efeito conceptual da sua experiência e reflexão, há no trabalho de Rui Macedo uma afirmação similar, cuja tarefa considera a pintura em “campo expandido” (adaptando à pintura o conceito de Rosalind Krauss),[2] numa linhagem que vai de Daniel Buren a Katharina Grosse, isto é, uma pintura produzida para o espaço da exposição, que abdica de um sentido de independência ou autonomia imagética e objetual, passando a viver na dependência absoluta das circunstâncias desse lugar onde se revela e constitui. A pintura de Rui Macedo é assim determinada, num sentido inequívoco, pelo tempo e o espaço específicos da sua exposição. Ou seja, o contexto é tão decisivo quanto a obra, ou a obra confirma e atua no contexto real da sua afirmação: o espaço. Recorrendo, porém, a uma espécie de hipervisualidade que se imiscui nos códigos do espaço e transforma o domínio do “parergon” (como na tese de Jacques Derrida)[3] – os elementos de “para-obra”, que delimitam o seu aparecer, do título à moldura, mas também todo o display do conjunto –, esta pintura converte-se num elemento de reconfiguração que convoca o conceito de “instalação” em arte e, desse modo, a nossa apreciação e compromisso totais, entre a visão e o corpo em ação, equivalente por fim à experiência vivenciada na arquitetura.

Com “Quodlibet”, o projeto pensado para o Museu do Neo-Realismo, o artista assume, uma vez mais, esse jogo deliberado: reconverter a mimesis da pintura a favor da consciencialização espacial. Assumindo os pressupostos ditados pelo “white cube” do espaço expositivo, Rui Macedo procura lidar ainda com o desafio adicional imposto por uma outra idiossincrasia da galeria do Museu, o facto de nela “entrar” a pequena Rua Almeida Garrett, que lhe fica adjacente, admitindo assim os condicionalismos das suas “pré-existências” estruturais, cromáticas, formais, de significado e memória, associadas à diversidade de construções desgastadas e envelhecidas dessa artéria da cidade. Essa consideração dos significados espaciais pré-existentes manifesta-se desde logo na medida em que o artista não realizou objetos autónomos que produzissem indiferença relativamente ao espaço, antes procurou responder à densidade afirmativa dessa condição com a proposta de um conjunto de pinturas que reinterpretam e certificam ao mesmo tempo uma realidade visual que é, antes de mais, física e presencial, verificável no próprio espaço da apresentação pictórica ou da sua instalação.

O desafio central de “Quodlibet” consiste, por isso, num “diálogo” ou “jogo” de visualidade produzido, de modo inevitável, entre a pintura, o espaço de exposição e a sua envolvente exterior, a qual, pela sua forte presença proporcionada por uma ampla superfície vidrada, adquire um valor extraordinário na perceção do próprio espaço da arte, com este se confundindo em muitos aspetos, alguns deles insuspeitos, outros inesperados.

Seduzido pelo envolvimento da tradição técnica da pintura com o sentido contemporâneo da sua manifestação, isto é, das suas hipóteses e condições de reconhecimento artístico nos nossos dias, Rui Macedo trabalha, todavia, um aspeto particular dessa relação. No caso concreto da sua instalação no Museu do Neo-Realismo, apresenta uma pintura que, sendo mimética, não é narrativa ou evocativa de uma exterioridade distante. O que aí se evoca passa pela exploração das características materiais oferecidas pelo espaço expositivo, e ainda pela sua envolvente, implicando-os assim, de modo direto, no exercício da representação. Em vez de impor uma “ausência”, uma “paisagem” ou uma “história” distantes, esta mimesis acentua a representação de uma “presença”, de uma “proximidade”, as “pré-existências” do lugar (da galeria e da rua). O efeito da representação é pleno de contemporaneidade pois realiza um vínculo com o espaço e, por essa via, com o tempo e a especificidade (espácio-temporal) da experiência da arte. Além disso, o seu processo de mimetização passa inclusive pelo suporte, confundindo-se a pintura com o próprio objeto, com a materialidade da sua condição real. Por isso, encontramos pinturas de placas de madeira que, na sua objetualidade pintada – simulando as cores e os veios do mármore, ou o design dos azulejos e as suas imperfeições –, sugerem a presença de placas de mármore, as mesmas que cobrem as paredes do espaço do museu, assim como os azulejos que revestem as paredes de algumas casas da rua. Ou seja, o que se pinta aparece-nos não só como simulação pictórica, mas também enquanto simulação objetual, aproximando-se deste modo de uma ilusão que, sendo ótica, é-o também em termos volumétricos e objetuais. Nessa medida, não estamos apenas perante pinturas que iludem a visão pela sua condição mimética de uma exterioridade representada, mas igualmente pela capacidade dessa exterioridade ser alimentada pela ilusão da sua materialidade tridimensional. Esta é a grande diferença de interpretação “trompe l’oeil” em Rui Macedo, pois a ilusão passa pela objetualidade da pintura se fixar na similitude de outros objetos exteriores nela representados e que obedecem não apenas aos aspetos visuais como objetuais, isto é, referentes à textura e às três dimensões da sua “presença”. Daí o forte apelo ao tato que esta pintura oferece e ao qual invariavelmente cedem quase todos os que com ela se confrontam. Neste sentido, o artista sugere um “jogo” constante de paradoxos, entre a “ilusão” e o “real”, o “olho” e a “mão”, a “verdade” e a “mentira”, ou, por fim, entre a “pintura” e o “espaço” onde esta se apresenta. Desse “jogo” de “espelhos” resulta, no essencial, um gosto pelas ilusões, pela exuberância de contrastes na ocupação dos planos pictóricos à escala das paredes, o que promove a perceção de um certo horror vacui, espécie de barroquismo assente no engano dos sentidos, ou nessa experiência mise en abyme que, entre duplicações formais e cromáticas, assume uma expressão de excesso. Atuando na plenitude de uma pintura que ocupa literalmente todo o espaço parietal, o artista reforça a ideia de que, apesar das hipóteses em disputa na interpretação da arte e das suas promessas de verosimilhança e (re)apresentação, resta um forte sentimento de comunhão, esse sim genuíno, entre a prática e a receção da obra de arte. Distante de qualquer pretensão sobre a “verdade” da sua correspondência, a arte de Rui Macedo consciencializa o observador sobre a impossibilidade da sua absolutização, identificando encantos e fragilidades que partem tanto do “jogo” inerente à sua proposta, como das consequências de significação que resultam do processo da sua recetividade.

Recordemos, a propósito, que o título escolhido por Rui Macedo para esta exposição, Quodlibet, diz respeito a um “jogo” dialético, situado numa longínqua tradição de disputa erudita que, pela elaboração contínua dos seus argumentos, culminava quase sempre na consciência sobre a impossibilidade de objetivar uma “verdade absoluta” em torno do tema escolhido. Com uma intitulação baseada nessa expressão do latim caída em desuso, o artista propõe simultaneamente uma redescoberta do termo linguístico e filosófico do século XIII e uma “discussão” da arte enquanto “abertura” lúdica de interpretações. Estas pressupõem sobretudo a construção de possibilidades irredutíveis, admitindo apenas o “jogo” de sedução de uma mimesis que sabe, à partida, das suas limitações, mas também da eficácia das suas potencialidades, apontando ao exercício constante das “várias verdades” que nos habitam quando nos dispomos a receber e experienciar os efeitos infinitos de uma verdadeira obra de arte.

 

(versão original in AAVV, Quodlibet, Museu do Neo-Realismo, 2024)

(imagem geral da instalação de Rui Macedo no Museu do Neo-Realismo, 23 março a 9 junho de 2024)

 

 

 

 

 

References
1 Cf. Antonio Bonet Correa, “El Esplendor de los Símbolos”, in catálogo da exposição de Rui Macedo Un Cuerpo Extraño, (curadoria: José María Parreño), Madrid, Museo Nacional de Artes Decorativas, 2013.
2 Cf. Rosalind Krauss, «Sculpture in the Expanded Field», in October, vol. VIII, Massachusetts, MIT Press Primavera de 1979.
3 Cf. Jacques Derrida, “The Parergon”, in October (trad. Craig Owens), Massachusetts, MIT Press, Verão de 1979, pp. 3-41; Cf. ainda Jacques Derrida, La vérité en peinture, Paris, Flammarion, 1978, p. 63.